A magia da sala escura

A tecnologia tem avançado a passos largos nos últimos anos. Em termos de fotografia, nunca foi produzida tanta câmera e possibilidades no campo digital como nos últimos cinco ou seis anos, tornando o impossível, possível.

São câmeras com trocentos megapixels, que até filmam em altíssima resolução. São recursos cada vez mais avançados nos softwares de edição e de retoque. Até os telefones celulares entraram na briga da fotografia. Isso sem falar no preço do equipamento que, de certa forma, tornou-se mais acessível, turbinado pelos financiamentos a longo prazo nas grandes redes de magazine.

Para os fotógrafos profissionais, essa correria desvairada dos fabricantes de tecnologia tem gerado alguns desafios. O primeiro e mais básico desafio é estar atualizado nos equipamentos, caso queiramos estar sempre com a última novidade em câmeras pendurada no pescoço. Não que isso seja uma exigência.

O segundo desafio é nadar entre o mar de pretensos fotógrafos que pipocam todos os dias em cada esquina, pois, como “provou” o humorista Luis Fernando Guimarães em um quadro televisivo, para ser fotógrafo, basta uma câmera e um flash (eu sei que não é bem assim, mas tem gente que pensa desse jeito).

Um terceiro desafio, e esse eu acredito que é uma realidade entre quase todos os fotógrafos que migraram inevitavelmente para o sistema digital, é o que chamo de “banalização da fotografia”. Hoje o fotógrafo lasca um cartão de 16 gigas no rabo de sua câmera e, para cada cena, faz umas trezentas fotografias, para depois sentar à frente do computador e escolher a foto que será usada.

Há época do filme (eu comecei aí), nós tínhamos poucas poses para acertar a foto que seria usada. Quem usava câmera de 35mm, tinha, para cada rolo de filme, no máximo, 36 poses. Para aqueles que usavam médio formato (120mm), variava entre 10 a 16 poses por rolo de filme, dependendo da câmera. E o mais interessante é que, conhecendo o equipamento, sabíamos quando tínhamos a foto, independentemente de ver a imagem pronta. A prática de fotografar com filme aguça a sensibilidade e os instintos do fotógrafo, e se o profissional tem essas qualidades treinadas, certamente enfrentará os desafios anteriores com enorme facilidade e nem sentirá a concorrência do mercado infestado por falsos profissionais.

E não tinha como errar, pois não dava pra ver a foto logo após fazer.

Dependendo do filme que se usava o cara tinha que ser bom mesmo, pois filmes “positivos” (os famosos Cromos), por exemplo, não davam margem para nenhum erro de luz.

O sujeito usava um fotômetro para medir a luz e ái dele se não acreditasse naquele equipamento e tentasse fazer uma média entre aquele resultado e o que dizia o fotômetro da câmera. Na certa ele iria amargar a perda da sessão fotográfica toda.

Mas o que diferenciava o homem do menino era o laboratório. Era na hora de revelar e ampliar as fotos que a coisa ficava bacana.

Eu diria que nada como a magia da sala escura! Só quem passou por essa experiência de revelar seus próprios filmes ou acompanhar o trabalho de um bom laboratorista entende todos os processos de se produzir uma boa foto.

De tempos em tempos temos que rever onde estamos acomodados e fazer um esforço para alcançar novos níveis. É como na academia. Quando o corpo dá aquela estacionada é hora de forçar a barra nos exercícios para atingir um nível maior.

Vendo que eu estava já me “acostumando” com as facilidades do processo digital, resolvi me exercitar mais um pouco e montei um laboratório Preto e Branco. Voltei a fotografar em 120mm e revelar minhas próprias fotos, tudo na suave penumbra vermelha que encanta todos os amantes da fotografia. Quem sabe agora eu comece a economizar os discos rígidos do meu estúdio e não perca tantas horas escolhendo as fotos boas entre as milhares que fiz em uma tarde com minha digital.

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