Ainda há tempo de fazer o bem

Sei que o texto pode soar meio que off topic, mas reflete a maneira como encaro meu trabalho fotográfico, filmográfico e artístico, e como me relaciono com clientes e amigos. 

Tem dias que acordo com a tentação de deixar de ser um empreendedor nesse país que dificulta a vida de quem tem ideias e favorece o servo bovino, deixar tudo que faço (e é muita coisa) e me tornar um empregado de alguma empresa multinacional que me terá como um mero número, mas daí o Senhor Meu Deus sempre me dá forças para mandar esse demônio embora e me permite viver mais um dia tocando em frente meus sonhos e empreendimentos, ainda que eles me exijam muito mais do que simplesmente cumprir o horário e ser um bom empregado. 

 Mesmo quando eu tinha carteira assinada — meus antigos patrões podem, sem nenhuma sombra de orgulho vão, dizer que — eu toquei os negócios como se meus fossem, alcançando sucesso, com o auxílio invisível porem indispensável da Graça Divina, em tempos e lugares nunca antes imaginados pelos meus pares nessas empresas. Nenhum mérito meu (Salmo 115, 1). 

 Lembro-me, como se fora hoje, meu primeiro encontro com o diretor internacional da empresa que trabalhei, numa convenção, no Rio Centro, em 2003. Ele me fazia várias perguntas em relação à filial brasileira da empresa, que eu respondia com frases típicas ensinadas por especialistas em RH, até que, tomado por um impulso da Graça, disse-lhe que não precisava se preocupar, pois a empresa era de minha responsabilidade e que a tocaria como se minha fosse, ao que ele, interrompendo a sabatina, sorriu e disse: era tudo o que eu precisava ouvir, e nunca mais precisou me dizer nada. 

Anos depois, em uma outra vinda sua ao Brasil, ele só me disse que estava feliz porque estávamos progredindo, e já mudamos o assunto para o sabor da carne que estávamos almoçando, que era divina, e para o lançamento do filme Paixão de Cristo, do Mel Gibson, que ele acompanhara as gravações na Itália. 

 Quando fui deixado da empresa por problemas gerados em outras filiais que chegaram como um tsunami arrasador, e já sem a presença daquele sábio diretor, senti que tinha perdido um pedaço de mim. Desde então, foquei minhas energias em negócios realmente meus (100%). 

 Hoje tenho dois focos de ação em meu trabalho: fortaleço minhas pequenas empresas e ajudo amigos nas suas. Sem medir esforços. Estou feliz assim e sei que cada ação direcionada nesse sentido, com pureza de intenção (que peço ao Senhor Meu Deus que me dê sempre), me trará uma recompensa, aqui ou no céu. 

 Não sou perfeito, e a vida não me deu oportunidades de ouro, como heranças abastadas ou amigos investidores abonados, portanto, nada é fácil. Nunca ganhei nada de mão beijada e tudo o que conquistei foi com base em muitas e muitas horas de estudo, uma curiosidade sem limites para o conhecimento e moções quase que escancaradas da Graça Divina, e talvez um único presente divino, uma memória que guarda muitos dados, 80% deles inúteis a princípio, mas que compõem um arcabouço histórico e moral que me ajudam a definir minhas ações, especialmente em meio a crises. 

 Contudo, Deus colocou no meu dia a dia pessoas cujo coração é bom, que trabalham com força sobre-humana e que possuem valores muito semelhantes aos meus. Pessoas que não querem somente acumular riqueza, mas que querem ter uma vida digna e que não medem esforços em ajudar os outros. Pessoas realmente boas. 

 Sem embargo, Há momentos em que cobro de Deus Nosso Senhor uma resposta, ou uma recompensa mais rápida para ações que acreditei terem sido boas, mas daí percebo o quanto esse mesmo Deus cuida de mim e dos meus a todo momento, em coisinhas simples, mas incrivelmente importantes, como na saúde, no bem estar, no Pão Nosso de Cada Dia, e especialmente, na força para viver as agruras diárias, para vencer as tentações que vêm tanto do espírito humano quanto do próprio demônio. Paz de espírito para encarar as dificuldades da vida adulta e o desejo inquieto de possuir o céu, nem que seja tomando-o por força. É nessas horas que vejo que Deus já me recompensou muito mais do que mereço. E nessas horas vejo que posso fazer a diferença para minha família e para meus amigos. 

 Se no dia de minha morte, eu souber que tudo o que fiz na vida, tenha dado certo ou errado, tenha sido com pureza de intenção e por acreditar tão somente que estava fazendo o bem, guiado por essa Magia Profunda que fala Lewis em suas Crônicas de Nárnia, acredito que terei alcançado meu objetivo primordial. Por hora, peço a Deus e aos irmãos, que me ajudem a identificar onde erro, por ação ou omissão, por mea culpa, mea maxima culpa, e que intercedam a Deus por mim, para que meus inúmeros pecados me sejam perdoados. No mais, vamos que vamos! Ainda há tempo de fazer o bem, e fazê-lo bem feito.

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