O Passado é diferente na Memória

Das muitas poucas coisas que aprendi nessa vida, uma delas é que o passado é diferente na memória, como diz Oswaldo Montenegro em sua música “Porta da Alegria”. Explico-me.

O passado real, o que aconteceu de fato, seja recente ou distante, aquilo que foi falado ou vivenciado, adquire uma nova forma na memória de quem viu, ouviu ou mesmo de quem viveu. Sendo assim, o passado se perde para sempre e o que sobra é tão somente a personagem que surgiu no exato momento em que o passado deixou de ser ele o protagonista. Nossa memória guarda tão somente aquilo que cremos ter sido o passado, e por mais distante ou caricata que a personagem seja do real passado, é somente essa que passa a ditar nossos passos, a turbinar nossos sentimentos, a alquimizar os elementos de nosso sistema nervoso.

O verdadeiro passado? Ah! Esse deixou de existir tão logo o presente, em seus tropeços, caiu diante do futuro e virou história. Portanto, se o passado te machuca de alguma forma, deixe pra lá, pois quem está te ferindo é só essa personagem que surgiu tentando imitar, da pior forma possível, aquele piscar de olhos que um dia foi presente e tocava a eternidade. Se você não deixar que essas personagens se desvaneçam e sumam, você continuará se lamentando dos dramas que foram encenados nos palcos de sua memória e seu presente sempre terá esses monstros como protagonistas.

Se você sobreviveu a seu passado até agora é porque aquela personagem era infinitamente menor que suas forças, ou o passado real era muito menor do que a personagem monstruosa que você criou para representá-lo. Se não nos matou é porque fomos mais fortes.

O que isso tem a ver com comunicação ou imagem? Simples! Como nossas câmeras e filmes, desde que foram inventados, são instrumentos da mais burra sinceridade, a memória registrada nesses meios é fiel ao passado real na maioria das vezes. Uma foto de família sempre será uma foto de família, sincera enquanto o é. Pra foto não importa se a família está em luto, está desmoronada, está realmente feliz. O que foi registrado é a família e ponto final. Para os vídeos que registraram a história, o que interessa é o registro, puro e simples. O vídeo de John F. Kennedy caindo nos braços da Jacqueline não tem monstros maiores do que a própria morte bizarra do Presidente. Tanto o é que não se consegue identificar o real assassino em nenhuma das filmagens, tudo é pura conjectura e resultado de investigações externas. No vídeo vemos só a morte em ação.

Contudo, não troco minha memória nem pela melhor e mais cara câmera que exista ou seja lançada, pois é justamente esse mecanismo intrincado, que insiste em registrar o que não foi visto, é que nos torna incrivelmente humanos. Só não posso deixar que suas personagens destruam minha vida. Em minha história o dragão sempre é morto, por mais nefasto que ele seja e sei disso porque ainda estou vivo e inteiro, por mais aventuras que minha memória já me tenha feito viver.

meu bisavô Epifânio de Castro e família

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