Quem manda? Fotógrafo ou equipamento?

Um grande amigo, jornalista dos bons, desses que nascem jornalistas e que possuem uma busca inata, me perguntou essa semana, quando eu fotografava um book de sua filha, qual a melhor configuração de sua câmera para fotografar uma cena bem difícil: o anoitecer na roça, com casinhas com fraca luz saindo da janela e as estrelas já ribombando no céu, de maneira que apareça tudo aquilo que estamos vendo com nossos olhos.

Depois de bons anos de tentativa e erro, cursos apavorantes, workshops maravilhosos e muito dinheiro gasto há época em que usávamos filmes e só teríamos acesso à fotos quando essas fossem reveladas, me dei conta de que há um pequeno diferencial entre nosso equipamento fotográfico e nosso aparelho de visão. 

Quando sentamos à varanda daquela casinha na Serra da Mantiqueira e olhamos para o vale abaixo, logo após o sol se por e vemos aquelas casinhas de roça, com uma tênue luz saindo das frestas do telhado e das janelas abertas, a silhueta negra das montanhas e no céu uma miríade de estrelas que nos saltam aos olhos nesses lugares distantes das grandes cidades, um poderoso aparelho composto de células sensíveis a vários tipos de luz, nervos avançadíssimos e um conjunto de milhares de neurônios funcionando de maneira quântica, com muitas informações sendo processadas ao mesmo tempo, faz um “retouch” daquela imagem, tratando ponto a ponto aquela cena que chega a nossos olhos. É como se, além de configurar a abertura, velocidade e ISO de minha câmera, imediatamente eu mandasse a imagem RAW para um potente computador e utilizasse as ferramentas mais precisas do Photoshop para tratar aquela imagem.

Daí, petulante fotógrafo que sou, pego minha poderosa câmera e dou uma fotometrada básica, regulo a câmera presa ao melhor tripé italiano que o dinheiro pode comprar e “click”, faço uma imagem completamente diferente daquilo que meus olhos veem. Se quero que as estrelas apareçam junto à silhueta das montanhas, a luz que sai das casas, que era de um suave alaranjado, fica parecendo um holofote de 5000 watts. Se regulo a luz das casas, já não consigo ver as montanhas, e muito menos aquelas estrelas que estão ali, bem em frente a meus olhos. Desisto de produzir a foto, com a sensação de que sou um péssimo fotógrafo.

Na verdade, desde a época dos filmes, sempre foi possível fazer fotos assim, mas isso exige que eu empreste à câmera o meu aparelho de processamento de imagem nativo, isto é, meu cérebro, e então, faça os cálculos corretos para alcançar o melhor equilíbrio entre o trinômio básico Abertura-Velocidade-ISO e, obviamente, na hora de pós-processar a imagem, devo dizer para o software (ou na hora de ampliar o filme revelado), que área da imagem precisa estar escurecida e que área eu devo deixar a luz mais incidente.

Em resumo, jamais elogie o equipamento de seu fotógrafo. Certamente ele não faz boas fotos em razão de possuir uma câmera de 30 mil dólares, sem contar o preço das lentes. O bom fotógrafo é o cara que consegue unir seu equipamento, seja ele qual for, com o aparelho que ele trouxe de nascimento, isto é, seu conjunto de olho e sistema nervoso central. Revelo, com muita sinceridade, que quando alguém me elogia pelo equipamento que trago às mãos, sinto-me um pouco depreciado, ainda que eu saiba que as pessoas, em geral, não possuem essa noção, de que o fotógrafo possui um “equipamento” muito mais profissional, que quase ninguém vê porque está dentro da cabeça enorme do artista.

© José Caetano - Jerusalém skyline

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